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Caso Vorcaro, Banco Master e Flávio Bolsonaro: entenda o escândalo de dados sigilosos e dinheiro para filme

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Rede de policiais, acesso ilegal a sistemas e um banqueiro no centro de uma crise política que já respinga em Flávio Bolsonaro

A história gira em torno do banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, e de uma estrutura paralela de espionagem e pressão que, segundo a Polícia Federal, funcionava com a ajuda de policiais federais ativos e aposentados para proteger os interesses do grupo financeiro. Ao mesmo tempo, vieram à tona conversas em que o senador Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, o que expõe uma relação que ele minimizava publicamente e conecta o escândalo financeiro a uma crise política.

O que é o Caso Master e a Operação Compliance Zero

O Banco Master e empresas ligadas a Daniel Vorcaro são investigados em uma operação da Polícia Federal chamada Compliance Zero, que apura fraudes financeiras e o uso de estruturas clandestinas de vigilância e intimidação contra críticos, concorrentes e pessoas vistas como ameaça aos negócios do grupo. Segundo decisões do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), essa estrutura teria sido montada para obter, de forma ilegal, informações sigilosas em bancos de dados públicos e para pressionar adversários do conglomerado ligado ao Master.

Nesta quinta-feira (14), a PF deflagrou a 6ª fase da operação e prendeu Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, apontado como responsável por solicitar “serviços” de intimidação e vazamento de informações e por fazer os pagamentos à rede de colaboradores, incluindo policiais. Ao todo, foram expedidos sete mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão contra suspeitos de integrar essa organização criminosa, que atuaria com intimidação, coerção, acesso a dados sigilosos e invasões cibernéticas.

Como funcionava a rede dentro da PF

A PF e o STF descrevem dois núcleos principais ligados a Vorcaro: o grupo “A Turma” e o grupo “Os Meninos”.

  • “A Turma”: braço de campo, responsável por ameaças, intimidações presenciais, cobranças e levantamentos clandestinos sobre pessoas que incomodavam os interesses de Vorcaro e do Banco Master.
  • “Os Meninos”: grupo com perfil tecnológico, dedicado a ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento telefônico ilegal, sempre para atender às demandas do núcleo central da organização.

Segundo a decisão de André Mendonça, integrantes da própria PF – incluindo uma delegada da ativa, um policial federal em exercício e dois aposentados – teriam usado o sistema interno e-Pol para consultar ilegalmente investigações e repassar informações sigilosas ao grupo. Os nomes citados na decisão são: Sebastião Monteiro Júnior (PF aposentado), Anderson Wander da Silva Lima (PF da ativa no Rio), Valéria Vieira Pereira da Silva (delegada federal) e Francisco José Pereira da Silva (PF aposentado e marido de Valéria), suspeitos de alimentar o esquema com dados obtidos nos sistemas internos.

De acordo com a PF, o operador Marilson Roseno da Silva acionava esses policiais ao perceber algum risco para Henrique Vorcaro, como quando tentou descobrir o conteúdo de um inquérito em que o empresário havia sido intimado, o que reforça a suspeita de infiltração da organização em “circuitos informacionais sensíveis” do Estado. Nesse modelo, a informação que deveria ficar restrita ao andamento de investigações passava a circular dentro do grupo criminoso, permitindo que ele se antecipasse a diligências e protegesse seus interesses.

Prisão do pai de Vorcaro e os principais alvos

Na nova fase da Compliance Zero, Henrique Moura Vorcaro foi preso em Nova Lima (MG), na região metropolitana de Belo Horizonte, em uma operação que mirou justamente os braços de intimidação (“A Turma”) e o braço tecnológico (“Os Meninos”). Segundo a PF, ele era o responsável por demandar serviços e efetuar pagamentos à rede que incluía pistoleiros, operadores de tecnologia e policiais federais, sempre para garantir vantagens ilícitas ao grupo ligado ao Banco Master.

A lista de presos ou alvos de prisão preventiva inclui, entre outros: Henrique Moura Vorcaro, David Henrique Alves, Victor Lima Sedlmaier, Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos, Manoel Mendes Rodrigues (apontado como “empresário do jogo” no Rio), Anderson Wander da Silva Lima (PF da ativa) e Sebastião Monteiro Júnior (PF aposentado). A defesa de Henrique afirma que a decisão se baseia em fatos cuja legalidade e racionalidade econômica ainda não estariam comprovadas no processo e diz que vai tentar reverter a prisão, reclamando de não ter sido ouvida antes da medida.

A relação com Flávio Bolsonaro

Enquanto o cerco jurídico se fecha sobre Vorcaro, vieram a público mensagens e um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro pede dinheiro ao banqueiro para financiar um filme biográfico de Jair Bolsonaro, intitulado “Dark Horse”. Reportagem do Intercept Brasil, repercutida por veículos como a CNN Brasil e o g1, aponta que Flávio teria negociado com Vorcaro algo em torno de 24 milhões de dólares (cerca de 134 milhões de reais) para bancar a produção, e que o empresário teria desembolsado ao menos 61 milhões de reais para o projeto.

Antes do vazamento dos áudios e mensagens, Flávio negava ter pedido dinheiro a Vorcaro e dizia não ter ligação com o banqueiro, posição que foi desmentida pelo material divulgado e que hoje é tema de grande desgaste político. Em uma das mensagens, o senador se dirige a Vorcaro em tom pessoal e de gratidão – “Estou e sempre estarei contigo” – o que reforça a percepção de proximidade entre o político e o empresário que hoje é alvo da PF.

Flávio, CPI do Master e o impacto político

Paralelamente, o próprio Flávio vinha se colocando como defensor de uma CPI para investigar o caso do Banco Master, tentando associar o escândalo ao governo Lula e ao PT e cobrando explicações públicas sobre o que chamou de “caso Master”. Depois que as conversas com Vorcaro vieram à tona, o discurso passou a ser visto por adversários como tentativa de se afastar de um escândalo que envolve um financiador de sua própria agenda política e eleitoral.

Aliados e rivais enxergam o episódio como uma crise de grandes proporções, porque mistura suspeitas de uso de um banco e de um esquema de acesso ilegal a dados públicos com financiamento de um projeto político e de imagem da família Bolsonaro, às vésperas de uma disputa presidencial. A revelação da “mesada” do Master para figuras do centrão e das tratativas milionárias com Flávio também pressiona o Congresso, que agora discute se retoma ou não a CPI do Banco Master em um clima de embate entre governo e oposição.

Fonte: g1, CNN Brasil, Congresso em Foco, O Antagonista, Hora do Povo, Agência Brasil, decisões do STF e reportagens sobre a Operação Compliance Zero e o Caso Master
Imagens: Arte de Intercept Brasil

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