quinta-feira , 1 outubro 2026
 
Home CIDADES Mães atípicas enfrentam juntas o descaso do município com crianças autistas
CIDADES

Mães atípicas enfrentam juntas o descaso do município com crianças autistas

344
Mães do Litoral se unem contra a falta de apoio às crianças autistas. Foto: O Litoral do Paraná

Há cinco meses, o único espaço onde mães atípicas encontram voz para protestar em favor dos filhos neurodivergentes são as redes sociais. Facebook e Instagram se tornaram as principais ferramentas dessas mulheres para denunciar, desabafar e tentar sensibilizar as autoridades diante do descaso com que convivem diariamente. O que as une é o esforço contínuo por garantir o melhor para seus filhos.

A dona de casa Jucimara Mendes, moradora do bairro Santos Dumont, é um exemplo dessa realidade. Ela tem dois filhos que necessitam de atenção especial: uma menina de 11 anos com deficiência intelectual, que estuda na Escola Eva Cavani, e um menino de 8 anos, Davi, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo Jucimara, sua filha não recebe o acompanhamento especializado necessário, e seu filho só pode frequentar a escola porque ela o acompanha dentro da sala de aula, devido à ausência de professores de apoio na rede pública municipal.

Além disso, Davi precisa urgentemente de uma reavaliação neurológica e está sem as terapias ocupacionais recomendadas para seu desenvolvimento. “Desde que as terapias foram paralisadas, meu filho se tornou mais inquieto, agressivo e com muita dificuldade de interação. Sinto que o comportamento dele regrediu. Por isso preciso de uma nova consulta com o neurologista, para saber se a medicação que ele está tomando é a adequada, mas não consigo”, lamenta.

Jucimara relata que, na escola do filho, é constantemente questionada por professores e até pela diretora sobre a medicação do menino. “Cheguei a receber a visita da diretora em casa me perguntando se meu filho estava tomando os remédios corretamente. Me senti muito humilhada”, desabafa.

Jucimara Mendes luta diariamente por atendimento digno para seus dois filhos neurodivergentes. Foto: O Litoral do Paraná

A situação de Jucimara não é isolada. Daiane Lourenço também percebe retrocesso no desenvolvimento do filho Danilo, devido à suspensão das Terapias Analítico-Comportamentais (ABA). “Meu filho está muito mais agitado, tanto na escola quanto em casa. Isso gera muitas reclamações dos professores, que nos questionam se estamos mantendo a medicação. Além de tudo o que enfrentamos, ainda temos que conviver com esse tipo de tratamento. É desumano”, afirma.

Cibele Batista, mãe do pequeno Daniel, de apenas 4 anos, expressa temor pelo futuro do filho. Ela diz que já procurou explicações na Secretaria Municipal de Inclusão, mas não obteve justificativas sobre a suspensão das terapias. “Este ano, a terapia ocupacional foi retirada, assim como outros profissionais. Quando buscamos informações, percebemos que é uma decisão administrativa. Não há previsão para retorno dos terapeutas nem estimativa de contratação de novos profissionais”, relata.

Para essas mães, a terapia ocupacional vai muito além de atividades lúdicas: representa uma oportunidade de proporcionar momentos com mais qualidade aos filhos, seja na escola ou em casa. A ausência do serviço compromete o bem-estar de todos. “O atendimento ao autista precisa ser multidisciplinar, mas tiraram isso da gente, e parece que não há nenhuma urgência para reverter a situação. Se essas pessoas convivessem com crianças autistas, perceberiam o quanto isso é vital”, desabafa Cibele.

DIFICULDADES

Outra mãe, que preferiu não se identificar, relatou à equipe do portal O LITORAL DO PARANÁ os entraves burocráticos para obter fraldas pelo SUS. Crianças diagnosticadas com TEA têm direito ao benefício gratuitamente, mas o processo foi dificultado. Até dezembro do ano passado, esse serviço era intermediado pela Secretaria Municipal de Inclusão (SEMI), o que deixou de ocorrer em 2025. “Para ter acesso às fraldas, precisamos de um laudo médico que comprove a necessidade da criança, atualizado a cada seis meses. Mas não há médico na rede pública que forneça esse documento. Quanto tempo mais isso vai demorar?”, questiona.

O laudo precisa ser assinado por um neurologista da rede municipal — profissional que, segundo as mães, está inacessível.

Mães de crianças autistas no Litoral do Paraná se unem para denunciar a falta de apoio e o descaso do município, lutando por um atendimento digno e terapias essenciais. Foto: O Litoral do Paraná

PALAVRA DE ESPECIALISTA

A terapia ocupacional tem como finalidade aprimorar habilidades sociais, motoras e cognitivas, promovendo a independência e a participação da criança em atividades do dia a dia. Segundo o neuropsicopedagogo Marcos Roberto Almeida, “a interrupção de terapias essenciais como fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e equoterapia representa um impacto profundo na vida das crianças, de suas famílias e das escolas. Essas intervenções não são apenas complementares; elas são parte fundamental do processo de desenvolvimento, aprendizado e inclusão”.

Ele ressalta que a ausência desses atendimentos compromete seriamente o progresso dos alunos. “Quando uma criança deixa de ter acesso à fonoaudiologia, por exemplo, comprometemos sua comunicação, o que afeta o desempenho escolar, autoestima e socialização. Sem terapia ocupacional, os avanços em autonomia, coordenação motora e autorregulação também são prejudicados”, explica.

Para Almeida, mais do que ganhos motores e neurológicos, essas terapias fortalecem o vínculo emocional entre mães e filhos. “A falta das ABA pode afastá-los — e isso é o que mais temem. Essa ausência cria um vácuo que não pode ser preenchido apenas com boa vontade; é necessária uma política pública comprometida com o desenvolvimento integral da criança. Como profissional que acompanha de perto essas realidades, vejo diariamente o quanto essas terapias fazem a diferença e o quanto a falta delas cobra um preço alto para todos os envolvidos”, conclui.

SEMI RESPONDE

A reportagem do O LITORAL DO PARANÁ entrou em contato com a Secretaria Municipal de Comunicação (SECOM), solicitando esclarecimentos sobre a situação atual da Secretaria Municipal de Inclusão. Em nota, a SECOM informou que “as terapias complementares destinadas aos alunos neurodivergentes não foram paralisadas; ocorreram apenas casos específicos em que professores se aposentaram ou retornaram para a Secretaria de Saúde”. Ainda segundo a nota, “casos e situações específicas estão sendo acompanhadas e solucionadas individualmente”.

Terapias cortadas e silêncio do poder público: o impacto é real nas famílias. Foto: Prefeitura de Paranaguá

Artigos relacionados

CIDADESLITORAL

FESTIVAL DA PRIMAVERA COMEÇA AMANHÃ EM GUARATUBA

Guaratuba recebe neste sábado uma programação especial para celebrar a chegada da...

CIDADESUTILIDADE PÚBLICA

Aquece Morretes registra 139 atendimentos na Estação do Aconchego

A Prefeitura de Morretes realizou, na sexta-feira (11), a terceira edição do...

CIDADESTEMPO CLIMA

Municípios do Litoral estão na lista do Inmet entre as 212 cidades com previsão de temporal para este domingo

Paranaguá, Antonina, Guaraqueçaba, Guaratuba, Matinhos, Morretes e Pontal do Paraná estão entre...

CIDADES

Tempo muda no Litoral do Paraná: Paranaguá registra ventos fortes e elevação da maré nesta sexta-feira

O tempo mudou ao longo desta sexta-feira (11) no Litoral do Paraná,...