Há cinco meses, o único espaço onde mães atípicas encontram voz para protestar em favor dos filhos neurodivergentes são as redes sociais. Facebook e Instagram se tornaram as principais ferramentas dessas mulheres para denunciar, desabafar e tentar sensibilizar as autoridades diante do descaso com que convivem diariamente. O que as une é o esforço contínuo por garantir o melhor para seus filhos.
A dona de casa Jucimara Mendes, moradora do bairro Santos Dumont, é um exemplo dessa realidade. Ela tem dois filhos que necessitam de atenção especial: uma menina de 11 anos com deficiência intelectual, que estuda na Escola Eva Cavani, e um menino de 8 anos, Davi, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo Jucimara, sua filha não recebe o acompanhamento especializado necessário, e seu filho só pode frequentar a escola porque ela o acompanha dentro da sala de aula, devido à ausência de professores de apoio na rede pública municipal.
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Além disso, Davi precisa urgentemente de uma reavaliação neurológica e está sem as terapias ocupacionais recomendadas para seu desenvolvimento. “Desde que as terapias foram paralisadas, meu filho se tornou mais inquieto, agressivo e com muita dificuldade de interação. Sinto que o comportamento dele regrediu. Por isso preciso de uma nova consulta com o neurologista, para saber se a medicação que ele está tomando é a adequada, mas não consigo”, lamenta.
Jucimara relata que, na escola do filho, é constantemente questionada por professores e até pela diretora sobre a medicação do menino. “Cheguei a receber a visita da diretora em casa me perguntando se meu filho estava tomando os remédios corretamente. Me senti muito humilhada”, desabafa.

A situação de Jucimara não é isolada. Daiane Lourenço também percebe retrocesso no desenvolvimento do filho Danilo, devido à suspensão das Terapias Analítico-Comportamentais (ABA). “Meu filho está muito mais agitado, tanto na escola quanto em casa. Isso gera muitas reclamações dos professores, que nos questionam se estamos mantendo a medicação. Além de tudo o que enfrentamos, ainda temos que conviver com esse tipo de tratamento. É desumano”, afirma.
Cibele Batista, mãe do pequeno Daniel, de apenas 4 anos, expressa temor pelo futuro do filho. Ela diz que já procurou explicações na Secretaria Municipal de Inclusão, mas não obteve justificativas sobre a suspensão das terapias. “Este ano, a terapia ocupacional foi retirada, assim como outros profissionais. Quando buscamos informações, percebemos que é uma decisão administrativa. Não há previsão para retorno dos terapeutas nem estimativa de contratação de novos profissionais”, relata.
Para essas mães, a terapia ocupacional vai muito além de atividades lúdicas: representa uma oportunidade de proporcionar momentos com mais qualidade aos filhos, seja na escola ou em casa. A ausência do serviço compromete o bem-estar de todos. “O atendimento ao autista precisa ser multidisciplinar, mas tiraram isso da gente, e parece que não há nenhuma urgência para reverter a situação. Se essas pessoas convivessem com crianças autistas, perceberiam o quanto isso é vital”, desabafa Cibele.
DIFICULDADES
Outra mãe, que preferiu não se identificar, relatou à equipe do portal O LITORAL DO PARANÁ os entraves burocráticos para obter fraldas pelo SUS. Crianças diagnosticadas com TEA têm direito ao benefício gratuitamente, mas o processo foi dificultado. Até dezembro do ano passado, esse serviço era intermediado pela Secretaria Municipal de Inclusão (SEMI), o que deixou de ocorrer em 2025. “Para ter acesso às fraldas, precisamos de um laudo médico que comprove a necessidade da criança, atualizado a cada seis meses. Mas não há médico na rede pública que forneça esse documento. Quanto tempo mais isso vai demorar?”, questiona.
O laudo precisa ser assinado por um neurologista da rede municipal — profissional que, segundo as mães, está inacessível.

PALAVRA DE ESPECIALISTA
A terapia ocupacional tem como finalidade aprimorar habilidades sociais, motoras e cognitivas, promovendo a independência e a participação da criança em atividades do dia a dia. Segundo o neuropsicopedagogo Marcos Roberto Almeida, “a interrupção de terapias essenciais como fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e equoterapia representa um impacto profundo na vida das crianças, de suas famílias e das escolas. Essas intervenções não são apenas complementares; elas são parte fundamental do processo de desenvolvimento, aprendizado e inclusão”.
Ele ressalta que a ausência desses atendimentos compromete seriamente o progresso dos alunos. “Quando uma criança deixa de ter acesso à fonoaudiologia, por exemplo, comprometemos sua comunicação, o que afeta o desempenho escolar, autoestima e socialização. Sem terapia ocupacional, os avanços em autonomia, coordenação motora e autorregulação também são prejudicados”, explica.
Para Almeida, mais do que ganhos motores e neurológicos, essas terapias fortalecem o vínculo emocional entre mães e filhos. “A falta das ABA pode afastá-los — e isso é o que mais temem. Essa ausência cria um vácuo que não pode ser preenchido apenas com boa vontade; é necessária uma política pública comprometida com o desenvolvimento integral da criança. Como profissional que acompanha de perto essas realidades, vejo diariamente o quanto essas terapias fazem a diferença e o quanto a falta delas cobra um preço alto para todos os envolvidos”, conclui.
SEMI RESPONDE
A reportagem do O LITORAL DO PARANÁ entrou em contato com a Secretaria Municipal de Comunicação (SECOM), solicitando esclarecimentos sobre a situação atual da Secretaria Municipal de Inclusão. Em nota, a SECOM informou que “as terapias complementares destinadas aos alunos neurodivergentes não foram paralisadas; ocorreram apenas casos específicos em que professores se aposentaram ou retornaram para a Secretaria de Saúde”. Ainda segundo a nota, “casos e situações específicas estão sendo acompanhadas e solucionadas individualmente”.













