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Paraná é vice-líder em casos de violência sexual contra crianças

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Estado aparece em segundo lugar em número de vítimas e em taxa proporcional, com cenário que especialistas consideram grave e ainda subnotificado

O número de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual no Brasil mais que triplicou em dez anos, conforme dados do Ministério da Justiça referentes ao período entre 2015 e 2025. Em 2025, foram 59.366 registros, ante 19.496 casos em 2015, o que representa alta superior a 200% no intervalo analisado. Nesse contexto, o Paraná ocupa a segunda posição tanto em número absoluto de vítimas quanto nas taxas proporcionais por população.

Entre os estados, São Paulo lidera em registros acumulados desde 2015, com mais de 100 mil vítimas, seguido pelo Paraná, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Pará. Embora São Paulo tenha a maior quantidade total, unidades da Federação como Pará e Paraná apresentam índices por 100 mil habitantes acima da média nacional, com destaque para o patamar de 44,93 vítimas por 100 mil moradores no Paraná em 2025.

O volume de casos segue em nível recorde no país, com 2025 repetindo praticamente o mesmo número de vítimas de 2024, na casa de 59 mil ocorrências anuais. No acumulado de 2015 a 2025, o painel nacional soma 486.001 vítimas, o que equivale a uma média de 121 registros por dia, com os maiores números concentrados entre 2023 e 2025.

O Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, lembrado sempre em 18 de maio, reforça o alerta sobre o problema e foi instituído em 1998 como data simbólica para campanhas de prevenção e denúncia. A série histórica mostra que o pico de registros ocorreu em 2023, quando o país ultrapassou 59,7 mil vítimas em um único ano.

As meninas concentram a maior parte das notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes em todo o período analisado. Os dados oficiais apontam que cerca de 84% das vítimas eram do sexo feminino, enquanto os meninos representam minoria nos registros, com uma parcela menor ainda sem informação de sexo preenchida nas estatísticas.

A taxa nacional de violência sexual contra crianças e adolescentes foi de 27,82 vítimas a cada 100 mil habitantes em 2025, mantendo a tendência de alta observada na década. O Ministério da Justiça foi procurado pela reportagem para comentar os números e apresentar as ações em andamento, mas não respondeu até o fechamento do texto.

Para a delegada Monique Lima, da Delegacia de Defesa da Mulher em São Paulo, o aumento dos registros reflete tanto o avanço das denúncias quanto uma maior capacidade da rede de proteção em identificar casos que antes permaneciam invisíveis. Segundo ela, profissionais de saúde, educação, assistência social e segurança pública estão mais preparados para reconhecer sinais de abuso, o que ajuda a tirar situações de dentro de casa e levá-las ao conhecimento das autoridades.

A delegada relata que a maioria dos casos envolve vítimas menores de 14 anos, enquadradas como estupro de vulnerável, com milhares de ocorrências registradas apenas em 2025 no estado de São Paulo. Ela destaca que os crimes atravessam todas as classes sociais e, com frequência, são praticados por pessoas próximas da vítima, muitas vezes dentro do ambiente familiar ou de convivência.

Mesmo sem uma unidade exclusiva para crimes sexuais contra crianças e adolescentes, as delegacias são orientadas a atender esse tipo de ocorrência, com as Delegacias de Defesa da Mulher concentrando mais experiência, especialmente em casos envolvendo meninas e adolescentes. Além da investigação, parte dessas unidades participa de palestras em escolas e ações integradas com a rede de proteção, ampliando a prevenção e o encaminhamento das vítimas.

A delegada Gabriela Segarra, também da Delegacia de Defesa da Mulher, relata que denúncias envolvendo crianças e adolescentes fazem parte da rotina diária da especializada. Em um dos casos acompanhados por ela, um menino autista de 5 anos, não verbal, foi abusado sexualmente por um homem hospedado na casa da família, que acabou preso preventivamente e confessou o crime.

O pesquisador Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência, avalia que parte do crescimento dos números se deve à redução da subnotificação, resultado de campanhas de conscientização, mudanças na legislação e maior preparo das autoridades para enquadrar e investigar esse tipo de crime. Ele pondera, contudo, que os dados também indicam um provável aumento real dos casos, alimentado por discursos misóginos e pela chamada “machosfera”, com forte influência sobre parte da juventude.

Cerqueira aponta que há um fortalecimento de culturas misóginas e machistas, associado a radicalismo político e à importação de narrativas conhecidas como “red pill”, além de episódios recentes de violência sexual coletiva envolvendo adolescentes. Para ele, as estatísticas representam apenas a parte visível de um problema maior, pois muitos abusos continuam sem registro oficial, o que faz da violência sexual contra crianças e adolescentes uma “ponta do iceberg”.

Estudos do Atlas da Violência e notificações da área de saúde indicam que grande parte dos casos ocorre dentro de casa, praticados por pessoas próximas, como pais, padrastos e avôs, o que reforça a dimensão estrutural do problema. O pesquisador resume que a maior calamidade relacionada à vulnerabilidade de crianças e adolescentes surge justamente no ambiente familiar, exigindo políticas contínuas de proteção, prevenção e responsabilização.

Fonte: Bem Paraná / Folhapress / Ministério da Justiça / Atlas da Violência
Imagens: Marcelo Casal/Agência Brasil

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