Busca por renda rápida impulsiona entregas por moto, mas rotina é marcada por instabilidade e altos riscos
A motocicleta virou uma porta de entrada quase imediata para o mercado de trabalho, especialmente nas grandes cidades, e ajuda a explicar por que tantos brasileiros estão se tornando entregadores. A expansão dos aplicativos de delivery fez com que esse serviço passasse a ser visto como uma espécie de “renda de emergência permanente”, acessível para quem enfrenta desemprego, endividamento ou dificuldade de recolocação.
Nos últimos anos, as vendas de motos dispararam: 2025 terminou com 2,1 milhões de motocicletas licenciadas no varejo, alta de 17,1% em relação a 2024, impulsionada justamente pelo trabalho em aplicativos. Além disso, locadoras de veículos ampliaram fortemente a frota de motos, permitindo que muitos trabalhadores comecem a rodar sem precisar de entrada, análise de crédito rigorosa ou financiamento longo, usando o aluguel como atalho para começar rápido. Especialistas ouvidos apontam que a moto reúne baixo custo operacional, rapidez para começar e alta demanda, combinação rara em outros tipos de trabalho urbano.
Por trás dessa facilidade, porém, está um modelo considerado precário, em que a maior parte dos custos e riscos recai sobre o entregador. Não há salário fixo, férias remuneradas ou renda garantida: o ganho depende do tempo conectado ao aplicativo, do volume de entregas e da dinâmica de demanda de cada cidade. Enquanto isso, o trabalhador arca com combustível, manutenção, pneus, seguro, documentação e, em muitos casos, com o próprio aluguel ou financiamento da moto, o que aumenta a pressão por rodar cada vez mais.
Pesquisas mostram que a renda do setor é instável e desigual. Um estudo do Ipea indica queda na renda média dos motoristas e entregadores ao longo dos últimos anos, enquanto outro levantamento, do Cebrap, registra ganhos líquidos médios entre cerca de R$ 2,6 mil e R$ 3,5 mil até 2024, variando conforme cidade, jornada e intensidade de trabalho. Em comum, os estudos apontam a intensificação da rotina, com mais trabalhadores passando de 49 horas semanais e muitos ultrapassando 60 horas por semana em busca de aumentar o faturamento.
O aumento das jornadas se reflete também nos acidentes. Levantamentos mostram que mais de 40% dos entregadores de alimentos por app já sofreram algum tipo de acidente, muitos trabalhando todos os dias, em turnos que superam 10 horas diárias, sem folga. Entidades de trânsito estimam que mais de 60% das mortes no trânsito envolvem motocicletas e que quem está na moto tem risco muito maior de morrer em acidentes do que quem está em carros, com vítimas concentradas principalmente entre 20 e 39 anos, faixa que reúne boa parte dos entregadores.
Mesmo assim, para muitos, a moto continua sendo vista como o meio mais rápido e acessível para garantir o sustento imediato. Alguns entregadores preferem pagar um valor fixo de aluguel para reduzir o medo de gastos imprevisíveis com manutenção, tentando trazer um pouco mais de previsibilidade a uma atividade marcada por renda variável. Entre a necessidade de ter dinheiro rápido e a falta de alternativas formais, o número de brasileiros nas motos segue crescendo, ainda que às custas de longas jornadas, instabilidade financeira e maior exposição ao trânsito.
Fonte: g1
Imagens: g1












