Comprimido em teste quase dobra o tempo de vida de pacientes com tumor avançado e reacende esperança contra um dos cânceres mais letais
A apresentação dos resultados finais do medicamento experimental daraxonrasib emocionou especialistas no maior congresso de oncologia clínica do mundo, em Chicago, nos Estados Unidos. Durante a sessão plenária da American Society of Clinical Oncology, médicos se levantaram para aplaudir o estudo e alguns chegaram às lágrimas ao ver os dados do ensaio clínico RASolute 302, feito com pacientes com câncer de pâncreas metastático que já não respondiam à quimioterapia. O auditório reunia cerca de 50 mil profissionais da área.
O remédio, em forma de comprimido tomado uma vez ao dia, quase dobrou a sobrevida mediana dos participantes com tumor avançado. Pacientes que receberam o daraxonrasib viveram em média 13,2 meses, contra 6,6 meses daqueles que continuaram somente no tratamento convencional, o que representa redução de 60% no risco de morte. O estudo de fase 3 incluiu 500 pacientes da América do Norte, Europa e Ásia, divididos aleatoriamente entre o grupo que recebeu o novo medicamento e o grupo mantido na quimioterapia.
Além do aumento no tempo de vida, os pesquisadores destacaram a resposta dos tumores e os efeitos colaterais. Mais de 31% dos pacientes tratados com daraxonrasib tiveram redução mensurável das lesões, contra 11,2% no grupo da quimioterapia. A taxa de interrupção do tratamento por toxicidade foi de 1,2% com o comprimido, enquanto na quimioterapia chegou a 11,2%. As reações adversas mais observadas foram erupções na pele, algumas graves, e feridas na boca, mas especialistas apontaram que, no geral, os pacientes relataram menos dor e melhor qualidade de vida durante o uso do novo remédio.
O entusiasmo também vem do alvo do medicamento: a proteína KRAS, presente em mais de 90% dos tumores de pâncreas. Durante décadas, essa proteína foi considerada “intratável”, pela dificuldade de criar fármacos capazes de se ligar a ela. O daraxonrasib utiliza uma espécie de “cola molecular” para desligar a proteína mutada e frear o crescimento do câncer, mecanismo que levou a direção da American Society of Clinical Oncology a classificar o estudo como um “divisor de águas”. Outros especialistas falaram em possível “revolução” no tratamento da doença.
Apesar da euforia, o avanço traz dúvidas sobre acesso e custo. O medicamento ainda não recebeu aprovação oficial e depende de análise da FDA, agência reguladora dos EUA, após pedido de prioridade feito pela farmacêutica responsável, a Revolution Medicines, que financiou o estudo. Novos remédios oncológicos costumam custar cerca de 10 mil dólares por mês no mercado americano, o equivalente a aproximadamente 50 mil reais. No Brasil, oncologistas avaliam que o acesso tende a ser bastante restrito, especialmente no SUS, onde o valor pago hoje pelo tratamento de câncer de pâncreas é muito inferior ao patamar dessas terapias. Ainda não há previsão de avaliação pela Anvisa nem garantia de cobertura pelos planos de saúde.
O câncer de pâncreas está entre os mais letais justamente porque, na maior parte dos casos, só é diagnosticado em estágio avançado, quando já atingiu outros órgãos. Mais da metade dos pacientes morre poucos meses após descobrir a doença. Nos Estados Unidos, são estimados cerca de 67 mil novos casos e mais de 52 mil mortes por ano. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer calcula mais de 13 mil novos diagnósticos anuais.
Fonte: R7
Imagens: R7












