A falta de transporte universitário no litoral do Paraná tem se tornado uma das principais barreiras para a permanência de estudantes no ensino superior. Em cidades como Paranaguá, Pontal do Paraná, Matinhos, Guaratuba, Morretes e Antonina, o deslocamento até os campi da UFPR, IFPR e Unespar é, para muitos, um desafio diário. A ausência de uma política pública efetiva sobre mobilidade estudantil afeta não só a frequência às aulas, mas também o desempenho acadêmico e o futuro profissional de jovens da região.
Na Universidade Federal do Paraná (UFPR) Litoral, localizada em Matinhos, são 137 alunos vindos de Paranaguá e 113 de Pontal do Paraná. Mas o problema não se restringe a esse campus: há também deslocamentos diários para o campus da UFPR em Pontal do Paraná e, em Paranaguá, para o IFPR e a Unespar. São estudantes que precisam atravessar quilômetros diariamente, muitas vezes sem nenhuma garantia de transporte público acessível.
Integrantes do movimento “Quero Transporte” relatam os desafios dos alunos
A estudante Thais Jaccon, presidente do Centro Acadêmico de Serviço Social e integrante do movimento “Quero Transporte”, explica que a mobilidade entre os municípios litorâneos é um entrave histórico. “A Universidade Federal do Paraná é composta majoritariamente por alunos de Matinhos, Paranaguá, Guaratuba, Morretes, Antonina e Pontal do Paraná. Ainda que essas cidades sejam próximas a Matinhos, onde se localiza a universidade, a mobilidade sempre é um fator decisivo na promoção do acesso, e muitas vezes não funciona. Seja por conta dos horários que não coincidem com os das aulas, seja porque o custo do deslocamento se torna inviável para os alunos, ou mesmo por não haver nenhuma alternativa de transporte. Nesse contexto, é necessário pensar em uma dinâmica de mobilidade que integre esses municípios e assegure um transporte que atenda às demandas das cidades e da universidade, garantindo segurança e qualidade.”

Ela ressalta que o movimento não surgiu apenas em Matinhos, mas se expandiu para outras instituições e cidades. “Essa discussão já se estende por anos e acaba sendo um diálogo que alcançou também outras instituições de ensino superior que enfrentam o mesmo problema. Para que a educação seja um direito de fato, é necessário garantir políticas de acesso e permanência. Esse é o foco do movimento pelo transporte.”
Daniel Raiden, estudante de Gestão e Empreendedorismo e também integrante do movimento, conta que muitos alunos têm a vida acadêmica prejudicada pela ausência de transporte regular. “A falta de transporte universitário afeta profundamente a vida e a rotina dos alunos, especialmente aqueles que moram longe do campus ou em áreas com pouco ou nenhum acesso a transporte público. Muitos estudantes dependem exclusivamente desse serviço para frequentar as aulas, participar de projetos de extensão, ter acesso a restaurantes universitários e bibliotecas ou realizar estágios. Sem ele, enfrentam atrasos, faltas frequentes, aumento no custo com passagens ou combustível (caso tenham veículo particular) e, em casos mais graves, a evasão.”
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Ele também chama atenção para o impacto psicológico. “Além disso, o tempo que poderia ser investido nos estudos ou no descanso acaba sendo consumido por longos deslocamentos. Isso compromete não só o desempenho acadêmico, mas também a saúde física e mental dos estudantes, que vivem sob constante estresse e cansaço.”
A estudante Lais Kraus, do curso de Administração Pública e também integrante do movimento, aponta caminhos jurídicos e políticos para viabilizar soluções. “Sabemos que não há legislação específica que assegure o transporte para o ensino superior. No entanto, a Constituição Federal, no artigo 205, prevê o direito à educação e, consequentemente, seu acesso. Pensando nisso, há aparatos jurídicos nos quais o poder público pode se basear para auxiliar os universitários na conquista do transporte, negociando com empresas de ônibus particulares ou com os serviços que hoje atendem à frota municipal dos sete municípios envolvidos.”
Segundo ela, investir no acesso ao ensino superior traz benefícios sociais e econômicos. “Vale ressaltar que garantir o ensino aos munícipes fortalece a economia local, uma vez que se estará levando mão de obra qualificada para o território envolvido.” E propõe ainda uma alternativa concreta: “Outra ideia seria a criação de um consórcio público que atenda ao transporte de todos os municípios, nos moldes do que é feito no serviço de emergência em saúde.”
Pauta chega à Assembleia Legislativa
Diante da mobilização crescente, o debate agora chega à Assembleia Legislativa do Paraná. Na próxima quarta-feira, 14 de maio, será realizada uma audiência pública promovida pelo mandato da deputada estadual Ana Júlia Ribeiro (PT), com início às 18h30, no Plenarinho da Alep, em Curitiba. O objetivo é reunir estudantes, docentes, técnicos e representantes das instituições de ensino superior da região para discutir soluções concretas para a precariedade do transporte universitário no litoral.
Durante visita ao campus da UFPR Litoral em março deste ano, a deputada ouviu relatos de estudantes que caminham longas distâncias, pagam caro por transporte particular ou, em muitos casos, são forçados a abandonar os estudos. A ausência de uma legislação clara que defina a responsabilidade pelo transporte universitário — seja ela municipal, estadual ou federal — tem deixado os estudantes desassistidos.
Participarão da audiência representantes da UFPR, IFPR, Unespar e do movimento “Quero Transporte”. Para a deputada, o momento exige união: “Se acreditamos que o acesso à educação precisa ser democrático e com dignidade, precisamos lutar juntos por isso”, afirmou Ana Júlia.












